11/06/2007
Rápidas e Rasteiras

Um toque de Maquiavel
Vi um jogo vertiginoso. Foi Palmeiras, 1 x Botafogo, 1, sábado. O Palmeiras, quando joga em seu campo, se transfigura. Vira fera. Fera do bem, diga-se passagem. Respeito é bom e a torcida não abre mão. Por isso, Caio Junior pôs seu time pra correr. E o time do Palmeiras acelerou o jogo do começo ao fim. Quem não corresse, certamente, seria corrido pela torcida.
Medida maquiavélica do comando palmeirense: uma hora antes de jogo, o campo foi regado até ficar encharcado. Ficou como se tivesse chovido a manhã toda. Campo molhado, bola molhada, manobra inteligente pra tornar a bola mais viva e, desse modo, minar o trunfo do time do Botafogo, que é o toque de bola.
A combinação de campo e correria dariam ao Palmeiras o controle da partida. O visitante estava absolutamente neutralizado. É nesse momento que sai o gol de falta, numa cobrança de execução exemplar.
Pra escapar de tamanha enrascada, o time do Botafogo contou, primeiro, com cansaço da garotada do Palmeiras, depois, contaria também com trocas oportuníssimas feitas pelo treinador Cuca que injetou sangue novo no time: Diguinho, André Lima e Alessandro.
Ainda assim, o contra-ataque palmeirense lhe daria três chances de gol que só não vingaram, mesmo, porque o goleiro alvinegro Júlio César andou obrando pelo menos milagres.
O jogo chegaria aos 15 minutos finais pra, então, sofrer um contra tempo. Numa jogada de córner, o atacante André desfere um sem-pulo mortal. Era o gol de empate, que animaria o time do Botafogo.
Desfecho até certo ponto injusto com o time que produzira os melhores números do jogo, o Palmeiras que chutou mais a gol, que criou mais escanteios, que realizou jogadas mais empolgantes.
De uma coisa saio convencido: Palmeiras e Botafogo, a julgar por esse jogo, estão vivíssimos, nesse campeonato.

A bola (polida) de Pato

Ninguém precisa ter olho clínico pra afirmar que o Alexandre Pato é craque, mas craque daqueles a quem a bola jamais ousaria mandaria plantar batatas. Não o vejo a toda a hora. O pouco que tenho visto, porém, já me deixa pra lá de contente.
Como é dócil a bola de Alexandre Pato. Já vem polida, pronta pra acabar em gol.
Vi na tevê o gol que garoto fez no Pachuca, outro dia.
Ele acelera e, em alta velocidade, domina a bola. No passo seguinte, perde o tempo da bola, que ficou pra trás. Não há de ser nada. Pato recompõe a situação, usando a face externa do pé esquerdo pra dar um toque preciso que tira o atraso da bola. O gesto a que me refiro, é também conhecido como puxeta. É truque de gente grande. Vi Zico tirar da cartola uma assim, numa jogada de gol que ele fez contra o Paraguai, há muito tempo.
Alexandre Pato, agora, troca de pé, desnorteando o zagueiro mexicano com leve finta. E lá vai ele! Outra vez, na corrida, Pato desborda, tirando do marcador o alcance da bola.
Chute cruzado, queimando a grama, canto oposto ao do goleiro.
Estava consumada uma obra prima.

Um pinguinho de gente
Justine Henin, baixotinha, feiosinha, vai a Roland Garros e faz um estrago sem tamanho nas quadras de saibro. Derrota celebradas musas, ignora tenistas de peso e leva mais um vez o título do mais charmoso torneio do circuito Grand Slam. Admirável o repertório de golpes da pacata tenista belga. Drive, revés, cruzada, pararela, slice, a adversária que fique à vontade. Pode escolher com que golpe de misericórdia vai querer ser ultrapassada por Justine Henin, um pinguinho de gente: gigantesca mulher.

Valdívia: bola roliça

Que beleza de jogador esse Valdívia, do Palmeiras e da seleção chilena. Arranjem, logo, um atacante de gol pra jogar perto de Valdívia. Não precisa ser nenhum gênio da área. A bola do cara já sai do berço sem arestas, roliça.

Comando soberano
O técnico Mano Menezes é uma das figuras mais interessantes do atual futebol brasileiro. Tem pulso, tem carisma, tem retórica. Fala e impressiona.
Argumenta e convence.

Na catedral do saibro
Meu caro Federer: nem adianta: no barro, se for contra o Nadal, tua sina será sempre comer o pó (de tijolo) que o diabo triturou. Dirás que, em Hamburgo, deu pé. Verdade. Mas, no reino das superfícies lentas, o que conta, mesmo, é Roland Garros, que vem a ser a catedral do saibro.

Indulgência plenária

Zé Roberto falou, falou e foi embora, deixando, pelo menos, em mim, uma impressão de que o craque do Santos sai do Brasil crivado de culpas. Ora, meu bom pastor, vós tendes a indulgência plenária que o Senhor concede às boas almas do rebanho celestial. Nada deveis à seleção, à qual servistes, sem soberba e com amor bíblico.
O resto, se houver, não passará de intriga que não vos atingirá.

Paradinha, paradão
O zagueiro Chicão, Figueirense, cobra pênalti contra o Flamengo, no estádio ‘Orlando Scarpeli’. Chicão freia a passada e dá a célebre paradinha pra desbundar o goleiro. Entre parêntesis: a paradinha, que insistem em atribuir a Pelé, a bem da verdade, foi inventada, mesmo, por mestre Didi.
Vamos em frente. O goleiro rubro-negro Bruno, metido a adivinho, salta pro lado esquerdo das traves. Só, então, sai o chute de Chicão. Gol, é claro!
Pergunta da produção do programa: por que o goleiro não tenta esperar pra ver se o cobrador vai usar o recurso malandro da paradinha? Amigo, fica paradão, imóvel, entre as traves. Não vai de primeira.
Valeria a pena, ver. Acho que daria um súbito apagão na cabeça do cobrador.

Coisas estapafúrdias
Fim de semana um tanto estapafúrdio: Atlético-PR apanha do Goiás, três a zero. Surrado, pois, dentro de sua própria casa. Claro que é surpreendente. Afinal, o Goiás, até agora, não tem sido mais que uma tosca imitação de si próprio.
Ali por perto, o Flamengo esqueceu o que é ser Flamengo. Tomou de quatro a zero. Ai, é o caso de perguntar: com que cara volta pra casa uma equipe que leva um esfrega desse tamanho, sem ao menos amassar o uniforme?
De qualquer maneira, esqueçamos o Flamengo, senão, estaremos cometendo uma maldade com o Figueirense, que jogou do modo brilhante.
Não menos chocante foi o Paraná que fez um vistoso 4 a 2, contra o Náutico de Recife, mas acabou baixando a guarda diante do tranco pernambucano.
Na aritmética paranaense, 4 a 4, noves fora, nada.

Ética é filigrana
“- Em seu blog, na globoesporte.com, o mestre Armando Nogueira, sofrido pela eliminação do seu Botafogo da Copa do Brasil, pelo Figueirense e pelas mãos da bandeirinha Ana Paula Oliveira, chamou atenção para um detalhe: uma mesma fábrica de material esportivo patrocinava os catarinenses e a auxiliar. Vejam bem: não estamos falando do contrato da CBF com o seu fornecedor, mas do negócio pessoal de uma árbitra com um patrocinador. No que parece um claro conflito de interesses pela função que ela exerce.”
O trecho transcrito é do artigo de Luis Fernando Gomes, Editor-chefe do Diário Lance, no qual escreve renomada coluna, todo domingo.
Mesmo misturando as estações quando invoca minha condição de simpatizante do Botafogo, L. F. Gomes foi o único colunista que sentiu a gravidade da questão ética, envolvendo a bandeirinha Ana Paula de Oliveira. Aliás, jamais sequer insinuei que a moça procedeu de má fé, ao anular dois gols do Botafogo. Limitei-me a deplorar um caso de conflito de interesse, ao qual nem a CBF nem a mídia deram a mínima bola.
Enfim, é como tenho escrito: ética, no Brasil, é mera filigrana.
07/06/2007
Noite de quatro palavras
Palavras! Eu preciso, no mínimo, de quatro delas pra resumir a noite mágica em que a equipe do Fluminense conquistou o título de campeã da Copa do Brasil: histórica, heróica, corajosa e abençoada.
Histórica, sem dúvida, porque há de perdurar, intacta, até o fim dos tempos.
Heróica, acima de tudo, porque superou, sem tréguas, espinhosos obstáculos, tanto de terreno como de regulamento.
Corajosa, mais que nunca, porque, no primeiro minuto de jogo, a equipe tricolor já lá estava resoluta, a espalhar, no terreno do rival, o fogo sagrado que imortaliza os audazes.
Abençoada, sim senhor, porque o gol que sacramentou o triunfo veio no momento preciso. Nem antes, nem depois do que dispunha a graça divina. Amém!
E, por fim, em nome da legitimidade esportiva, direi que o titulo do Figueirense honrou, plenamente, a noite irretocável do Fluminense. Ambos se igualaram na bravura. Pode haver, no universo esportivo, traço mais louvável?
Afinal, a bravura é a virtude dos verdadeiros heróis.
Epopéia na Vila Belmiro

E que dizer da equipe que, mesmo triunfando, perdeu? Por acaso, o Santos se engrandeceu na derrota? Mas, como derrotado, se o Santos foi o vitorioso da noite? Estranho paradoxo. É a própria lógica do erro. Quem venceu não levou. Se tem sido 1 a 3 teria dado no mesmo. Avesso do avesso. O Grêmio foi o venturoso derrotado da noite. Perdeu e vai em frente. O Santos venceu e caiu no vazio. Derrota, sinônimo de vitória.
Quando a derrota vale mais que a vitória, é preferível perder?
Meu amigo internauta, não me julgue mal. Estou apenas fazendo um pequeno exercício intelectual pra saber até onde pode nos levar a chamada lógica do erro.
O jogo da Vila Belmiro, entre Santos e Grêmio, foi tão épico quanto o de Floripa, entre Figueirense e Fluminense. O campeão gaúcho já vinha de uma sólida vantagem, quando fez dois a zero, no Olímpico. O Santos bem que batalhou, incansavelmente. Foi bravo, sem dúvida. Como bravo soube ser, mais uma vez, o Grêmio, jogando seu futebol, ao mesmo tempo realista e implacável.
Nas mãos do Grêmio, o futebol brasileiro estará representado com engenho e arte.
Quem viver verá.