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  1. 12/06/2007

    O eterno feminino



    O campeonato brasileiro vai indo: de pernas, razoavelmente; de rostos, muito bem. Lindas mulheres deram de aparecer nos estádios, pra encantamento geral. Sozinhas, ou elas por elas, são bem vindas no estádio. São as divas da arquibancada. Torcem com efusão, mas sem perder a feminilidade, sua condição essencial. Não são arrebatadas, como os marmanjos, que, ora, são festivos, ora, abrasivos.
    As moças do futebol torcem sem angústias, como se pressentissem, por obra do sexto sentido, quem vencerá o jogo.
    As mulheres, surpreendidas (?) pela câmera, suavizam o drama do jogo, deitando sobre o campo o dom inefável de sorrir.
    Sabem e sabem muito bem que a lente da tevê (espelho meu!) reflete uma beleza que não está no vestido...
    Bem vindo seja ao futebol o eterno feminino. Ela já não é nem a namorada, nem a esposa do torcedor.
    É tão somente, a torcedora: ela e a soberana beleza de seu rosto.

  2. 11/06/2007

    Rápidas e Rasteiras



    Um toque de Maquiavel
    Vi um jogo vertiginoso. Foi Palmeiras, 1 x Botafogo, 1, sábado. O Palmeiras, quando joga em seu campo, se transfigura. Vira fera. Fera do bem, diga-se passagem. Respeito é bom e a torcida não abre mão. Por isso, Caio Junior pôs seu time pra correr. E o time do Palmeiras acelerou o jogo do começo ao fim. Quem não corresse, certamente, seria corrido pela torcida.
    Medida maquiavélica do comando palmeirense: uma hora antes de jogo, o campo foi regado até ficar encharcado. Ficou como se tivesse chovido a manhã toda. Campo molhado, bola molhada, manobra inteligente pra tornar a bola mais viva e, desse modo, minar o trunfo do time do Botafogo, que é o toque de bola.
    A combinação de campo e correria dariam ao Palmeiras o controle da partida. O visitante estava absolutamente neutralizado. É nesse momento que sai o gol de falta, numa cobrança de execução exemplar.
    Pra escapar de tamanha enrascada, o time do Botafogo contou, primeiro, com cansaço da garotada do Palmeiras, depois, contaria também com trocas oportuníssimas feitas pelo treinador Cuca que injetou sangue novo no time: Diguinho, André Lima e Alessandro.
    Ainda assim, o contra-ataque palmeirense lhe daria três chances de gol que só não vingaram, mesmo, porque o goleiro alvinegro Júlio César andou obrando pelo menos milagres.
    O jogo chegaria aos 15 minutos finais pra, então, sofrer um contra tempo. Numa jogada de córner, o atacante André desfere um sem-pulo mortal. Era o gol de empate, que animaria o time do Botafogo.
    Desfecho até certo ponto injusto com o time que produzira os melhores números do jogo, o Palmeiras que chutou mais a gol, que criou mais escanteios, que realizou jogadas mais empolgantes.
    De uma coisa saio convencido: Palmeiras e Botafogo, a julgar por esse jogo, estão vivíssimos, nesse campeonato.



    A bola (polida) de Pato
    Ninguém precisa ter olho clínico pra afirmar que o Alexandre Pato é craque, mas craque daqueles a quem a bola jamais ousaria mandaria plantar batatas. Não o vejo a toda a hora. O pouco que tenho visto, porém, já me deixa pra lá de contente.
    Como é dócil a bola de Alexandre Pato. Já vem polida, pronta pra acabar em gol.
    Vi na tevê o gol que garoto fez no Pachuca, outro dia.
    Ele acelera e, em alta velocidade, domina a bola. No passo seguinte, perde o tempo da bola, que ficou pra trás. Não há de ser nada. Pato recompõe a situação, usando a face externa do pé esquerdo pra dar um toque preciso que tira o atraso da bola. O gesto a que me refiro, é também conhecido como puxeta. É truque de gente grande. Vi Zico tirar da cartola uma assim, numa jogada de gol que ele fez contra o Paraguai, há muito tempo.
    Alexandre Pato, agora, troca de pé, desnorteando o zagueiro mexicano com leve finta. E lá vai ele! Outra vez, na corrida, Pato desborda, tirando do marcador o alcance da bola.
    Chute cruzado, queimando a grama, canto oposto ao do goleiro.
    Estava consumada uma obra prima.



    Um pinguinho de gente
    Justine Henin, baixotinha, feiosinha, vai a Roland Garros e faz um estrago sem tamanho nas quadras de saibro. Derrota celebradas musas, ignora tenistas de peso e leva mais um vez o título do mais charmoso torneio do circuito Grand Slam. Admirável o repertório de golpes da pacata tenista belga. Drive, revés, cruzada, pararela, slice, a adversária que fique à vontade. Pode escolher com que golpe de misericórdia vai querer ser ultrapassada por Justine Henin, um pinguinho de gente: gigantesca mulher.









    Valdívia: bola roliça


    Que beleza de jogador esse Valdívia, do Palmeiras e da seleção chilena. Arranjem, logo, um atacante de gol pra jogar perto de Valdívia. Não precisa ser nenhum gênio da área. A bola do cara já sai do berço sem arestas, roliça.

















    Comando soberano
    O técnico Mano Menezes é uma das figuras mais interessantes do atual futebol brasileiro. Tem pulso, tem carisma, tem retórica. Fala e impressiona.
    Argumenta e convence.








    Na catedral do saibro
    Meu caro Federer: nem adianta: no barro, se for contra o Nadal, tua sina será sempre comer o pó (de tijolo) que o diabo triturou. Dirás que, em Hamburgo, deu pé. Verdade. Mas, no reino das superfícies lentas, o que conta, mesmo, é Roland Garros, que vem a ser a catedral do saibro.


    Indulgência plenária
    Zé Roberto falou, falou e foi embora, deixando, pelo menos, em mim, uma impressão de que o craque do Santos sai do Brasil crivado de culpas. Ora, meu bom pastor, vós tendes a indulgência plenária que o Senhor concede às boas almas do rebanho celestial. Nada deveis à seleção, à qual servistes, sem soberba e com amor bíblico.
    O resto, se houver, não passará de intriga que não vos atingirá.



    Paradinha, paradão
    O zagueiro Chicão, Figueirense, cobra pênalti contra o Flamengo, no estádio ‘Orlando Scarpeli’. Chicão freia a passada e dá a célebre paradinha pra desbundar o goleiro. Entre parêntesis: a paradinha, que insistem em atribuir a Pelé, a bem da verdade, foi inventada, mesmo, por mestre Didi.
    Vamos em frente. O goleiro rubro-negro Bruno, metido a adivinho, salta pro lado esquerdo das traves. Só, então, sai o chute de Chicão. Gol, é claro!
    Pergunta da produção do programa: por que o goleiro não tenta esperar pra ver se o cobrador vai usar o recurso malandro da paradinha? Amigo, fica paradão, imóvel, entre as traves. Não vai de primeira.
    Valeria a pena, ver. Acho que daria um súbito apagão na cabeça do cobrador.



    Coisas estapafúrdias
    Fim de semana um tanto estapafúrdio: Atlético-PR apanha do Goiás, três a zero. Surrado, pois, dentro de sua própria casa. Claro que é surpreendente. Afinal, o Goiás, até agora, não tem sido mais que uma tosca imitação de si próprio.
    Ali por perto, o Flamengo esqueceu o que é ser Flamengo. Tomou de quatro a zero. Ai, é o caso de perguntar: com que cara volta pra casa uma equipe que leva um esfrega desse tamanho, sem ao menos amassar o uniforme?
    De qualquer maneira, esqueçamos o Flamengo, senão, estaremos cometendo uma maldade com o Figueirense, que jogou do modo brilhante.
    Não menos chocante foi o Paraná que fez um vistoso 4 a 2, contra o Náutico de Recife, mas acabou baixando a guarda diante do tranco pernambucano.
    Na aritmética paranaense, 4 a 4, noves fora, nada.


    Ética é filigrana
    “- Em seu blog, na globoesporte.com, o mestre Armando Nogueira, sofrido pela eliminação do seu Botafogo da Copa do Brasil, pelo Figueirense e pelas mãos da bandeirinha Ana Paula Oliveira, chamou atenção para um detalhe: uma mesma fábrica de material esportivo patrocinava os catarinenses e a auxiliar. Vejam bem: não estamos falando do contrato da CBF com o seu fornecedor, mas do negócio pessoal de uma árbitra com um patrocinador. No que parece um claro conflito de interesses pela função que ela exerce.”
    O trecho transcrito é do artigo de Luis Fernando Gomes, Editor-chefe do Diário Lance, no qual escreve renomada coluna, todo domingo.
    Mesmo misturando as estações quando invoca minha condição de simpatizante do Botafogo, L. F. Gomes foi o único colunista que sentiu a gravidade da questão ética, envolvendo a bandeirinha Ana Paula de Oliveira. Aliás, jamais sequer insinuei que a moça procedeu de má fé, ao anular dois gols do Botafogo. Limitei-me a deplorar um caso de conflito de interesse, ao qual nem a CBF nem a mídia deram a mínima bola.
    Enfim, é como tenho escrito: ética, no Brasil, é mera filigrana.

  3. 09/06/2007

    O bleizer do zagueirão



    O time do Cruzeiro era o máximo. Tinha desabrochado pela metade dos anos 60, quando um vendaval de idéias revolucionárias balançava, por inteiro, o coreto do mundo ocidental.
    Se nos campus universitários a juventude fazia tremer as velhas instituições políticas, nos campos de futebol, o Santos, de Pelé, o Botafogo de Garrincha e o Cruzeiro de Tostão não davam por menos.
    Logo, logo, a equipe estelar estava cruzando fronteiras. Chovia convite do mundo inteiro. Até os americanos do norte, que, até então não ligavam pra futebol, até eles, queriam ver o futebol fantasia do Cruzeiro.
    Afinal, chega primeiro aceno, propondo uma série de três amistosos nos Estados Unido. Convite feito, convide aceito. E acabaria em total sucesso. Três partidas, três vitórias.
    Os brasileirinhos do Cruzeiro tinham o dom de fazer mágicas. A bola, nos pés deles, só faltava falar...
    No fim da excursão, o Cruzeiro deixa em Washington, sumamente aplaudido por hóspedes e funcionários do hotel. Uma consagração como poucas vezes se viu numa excursão brasileira aos Estados Unidos.
    O ônibus está partindo do hotel. Abraços! Tchau!
    - Pára! Pára! É a segurança do hotel, mandando reter o ônibus. Os gringos reclamam que, na vistoria dos quartos, os empregados deram pela falta de uma cortina num dos aposentos do time. A ordem era baixar as malas e revistar toda a bagagem da delegação.
    - O que?, protestou o chefe da delegação, com o apoio do cônsul brasileiro posto à disposição do Cruzeiro pelo Itamaraty.
    Receosos de criar um incidente diplomático, os americanos desistiram. A busca, além de humilhante, era insutuosa.
    Perca-se uma cortina, mas não se perca a amizade de um visitante ilustre.
    Passados seis meses, o time do Cruzeiro vai viajar a Buenos Aires, onde o espera um amistoso com o Boca Juniors. Um a um, os jogadores vão chegando ao aeroporto do Galeão.
    O goleiro Raul Plasman, conhecido por sua proverbial irreverência, sussurra no ouvido de Tostão alguma coisa, no mínimo, picante. Acena, de mansinho, pro Piazza e pro Dirceu Lopes. Aponta na direção de um certo lateral. Claro que o faz discretamente. O distinto é um touro. Senso de humor, zero. Tem porte de boxeur, cara de boxeur e jamais refugou um quebra-pau.
    Trajava um bleizer, modelo cheguei, muito bem recortado. O padrão do tecido, com florões espalhafatosos, não enganava ninguém.
    Quem esteve naquela viagem aos Estados Unidos lembrava-se perfeitamente de uma certa cortina que, na manhã da viagem, sumira de hotel do Cruzeiro, em Washington.
    Raul fez os mais rasgados elogios ao bleizer cor de anil do zagueirão. Que encaixou, bonitinho, sem passar recibo...

  4. 08/06/2007

    No ar, o Marquês de Xapuri




    Pouca gente sabe que uma de minhas maiores paixões é voar. Antes de descobrir o futebol, eu já me sonhava, circulando pelo ar, no doce sobrevôo da floresta amazônica de Xapuri. Quando vi chegar primeiro avião à minha terra, pra mim, aquilo já me era absolutamente familiar.
    Dos sonhos à realidade, levou tempo. Se aos cinco anos de idade eu já “voava”, o curso de pilotagem, porém, só me ocorreria aos 55 anos.
    Hoje, voar é um passatempo semanal na minha vida. Daí que, outro dia, fui convidado a fazer um vôo pras câmeras do programa “Estrelas”, da estrelíssima Angélica, da Globo.
    O blog do AN reproduz um trecho do vôo de demonstração, feito no espaço aéreo do clube de vôo chamado CEU, onde fica guardado o meu anfíbio querido, também conhecido nos céus de Jacarepaguá como o Marquês de Xapuri.
    - Coordenação CEU, o MAX está no ponto-de-espera da pista Uno-Cinco, aguardando autorização pra decolar!
    Na Torre de Comando, dando uma de Controladora de Vôo, a bela Angélica.

  5. 07/06/2007

    Noite de quatro palavras


    Palavras! Eu preciso, no mínimo, de quatro delas pra resumir a noite mágica em que a equipe do Fluminense conquistou o título de campeã da Copa do Brasil: histórica, heróica, corajosa e abençoada.
    Histórica, sem dúvida, porque há de perdurar, intacta, até o fim dos tempos.
    Heróica, acima de tudo, porque superou, sem tréguas, espinhosos obstáculos, tanto de terreno como de regulamento.
    Corajosa, mais que nunca, porque, no primeiro minuto de jogo, a equipe tricolor já lá estava resoluta, a espalhar, no terreno do rival, o fogo sagrado que imortaliza os audazes.
    Abençoada, sim senhor, porque o gol que sacramentou o triunfo veio no momento preciso. Nem antes, nem depois do que dispunha a graça divina. Amém!
    E, por fim, em nome da legitimidade esportiva, direi que o titulo do Figueirense honrou, plenamente, a noite irretocável do Fluminense. Ambos se igualaram na bravura. Pode haver, no universo esportivo, traço mais louvável?
    Afinal, a bravura é a virtude dos verdadeiros heróis.

    Epopéia na Vila Belmiro


    E que dizer da equipe que, mesmo triunfando, perdeu? Por acaso, o Santos se engrandeceu na derrota? Mas, como derrotado, se o Santos foi o vitorioso da noite? Estranho paradoxo. É a própria lógica do erro. Quem venceu não levou. Se tem sido 1 a 3 teria dado no mesmo. Avesso do avesso. O Grêmio foi o venturoso derrotado da noite. Perdeu e vai em frente. O Santos venceu e caiu no vazio. Derrota, sinônimo de vitória.
    Quando a derrota vale mais que a vitória, é preferível perder?
    Meu amigo internauta, não me julgue mal. Estou apenas fazendo um pequeno exercício intelectual pra saber até onde pode nos levar a chamada lógica do erro.
    O jogo da Vila Belmiro, entre Santos e Grêmio, foi tão épico quanto o de Floripa, entre Figueirense e Fluminense. O campeão gaúcho já vinha de uma sólida vantagem, quando fez dois a zero, no Olímpico. O Santos bem que batalhou, incansavelmente. Foi bravo, sem dúvida. Como bravo soube ser, mais uma vez, o Grêmio, jogando seu futebol, ao mesmo tempo realista e implacável.
    Nas mãos do Grêmio, o futebol brasileiro estará representado com engenho e arte.
    Quem viver verá.

sobre o blog

Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre. Começou sua carreira jornalística em 1950. Já cobriu 15 Copas do Mundo e 7 Jogos Olímpicos. Escreveu 10 livros sobre esporte.

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