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  1. 08/05/2007

    Cavalinhos e cavalões



    Olha só, amigo, o mal que faz ao futebol essa embolação de regionais, Copa do Brasil e Libertadores, tudo jogado no mesmo embalo. São três disputas distintas, sem que as equipes tenham tempo, sequer, de trocar, na cachola assoberbada, as fichas de diferentes regulamentos.
    E o que é pior: sem poder trocar de pernas, nem de músculos, nem de pulmões.
    A sensação que se tem é de fim de temporada. E, no entanto, no duro, mesmo, a pedreira ainda nem começou. A menos que o carro-chefe do calendário tenha deixado de ser o campeonato brasileiro.
    Houve tempo em que a ordem era abolir os estaduais. Todo mundo preferia competições de largo alcance. Vivia-se a febre da globalização.
    Claro que as bases chiaram. Os cartolas paroquiais perderiam poder. A CBF, que tem nas federações a sua grande fonte eleitoral, puxou os cabos.
    Combinou-se, então, um meio terno: o regional seria enxugado. Seria um torneio vapt-vupt, justamente pra não deixar na brocha a cartolagem paroquial.
    Conclusão: a folhinha regional, que tinha sido espremida, com o fermento político, voltou a inchar. O campeonato paulista, por exemplo, contempla, hoje, nada menos de 20 equipes. E anotem, por favor: não vai ficar por aí...
    Aí, você soma às pedreiras locais a Copa do Brasil e a Taça Libertadores. No mínimo, cada equipe tem que se virar em duas frentes. Alguém dirá que não chega a ser demais jogar duas vezes por semana. Quem pensa assim, esquece que uma coisa é jogo quarta e domingo da mesma competição; outra coisa é jogo quarta e domingo, tendo, porém, que agir e reagir segundo regulamentos essencialmente diferentes.
    Sei que estou malhando em ferro frio. O futebol brasileiro da cartolagem é um e o futebol brasileiro do bom-senso é outro. O primeiro, desumano, que consome o atleta, me lembra um célebre poema de Manuel Bandeira.
    Um dia, o poeta almoçava no Jockey Club do Rio.
    Olhou pela janela. Lá fora, na pista ensolarada, corriam-se sucessivos páreos. Um calor de rachar meio-fio. Bandeira, com dó do que via, teve o estalo poético:
    “Os cavalinhos correndo /
    E nós, cavalões, comendo...”
    O poema vai em frente, falando de amor, de política, de outras transcendências, mas o mote que abre cada quarteto é sempre o mesmo: os cavalinhos correndo / e nós, cavalões comendo...

  2. 07/05/2007

    De prima...



    O que ninguém disse, mas eu digo: o time do Botafogo jogou a final com o Flamengo, muito mais na força do brio do que das próprias pernas. Pensar que essa boa equipe alvinegra vem de oito partidas eliminatórias, jogando de três em três dias, sem ter um banco de peso. Pensar tudo isso e não admitir que o time está espoliado, física e mentalmente, é ignorar tudo o que dizem os manuais de Fisiologia do Esporte.

    Agora campeão paulista, Luxemburgo não será mais molestado pela nebulosa história da saída de Tiuí e de Pedro, que deixaram o Santos, atirando contra a ética do célebre treinador.
    Inês é morta.


    Breve ilação extraída de uma meia frase do técnico Abel Braga: a proposta do Betis, da Espanha, pra tê-lo no comando técnico, é tentadora. Abel só está dando tempo, pra ver o que é que acontece na Espanha: o Betis está cai-não-cai, é o 15º num campeonato de 20 times, com 3 caindo e 3 subindo.

    A produção do Blog do AN, está pesquisando ‘causos’ do futebol pra atender a numerosos pedidos. De preferência, sábado e domingo, recordaremos episódios pitorescos desse fabuloso imaginário que é o futebol brasileiro.
    Preparem-se que o primeiro personagem é o folclórico Neném Prancha.


    O cronômetro não precisava ter sido tão inclemente com a nadadora Mariana Brochado. No mínimo, privou as raias do Pan-americano de se transformarem em passarela, para o desfilar de uma formosa mulher.

    O Marques de Xapuri ficou muito feliz de ter sido personagem de uma matéria extremamente simpática, feita pela estrelíssima Angélica. Tanto ela no vídeo, quanto o pessoal dos bastidores, todos deixaram as melhores recordações no clube CEU, onde foi feita a matéria sobre aviação esportiva.

    O bandeirinha Hilton Moutinho, que invalidou uma jogada decisiva de Dodô, no minuto final de Botafogo-Flamengo, deu a mão à palmatória. Disse que viu o teipe e constatou que Dodô estava, realmente, em condições de jogo. E concluiu, certamente, de alma aliviada, que errar é humano.
    Não deixa de ser uma bandeira.

    Um pitaco de marinheiro de primeira viagem na aventura dos blogs: alguns internautas, rubro-negros encachorrados, me apontam como anti-Flamengo e caem de pau nas minhas opiniões. Sentença da maioria: eu posso entender um pouquinho de futebol, mas não entendo patavinas de Flamengo.
    Já sei, o Flamengo é uma caixa preta...

  3. 07/05/2007

    Pura mistificação



    Uma coisa que eu jamais consegui entender direito é a sistemática exaltação da garra como arma essencial de vitória do Flamengo. Domingo, o vice Kleber Leite dizia que o título contra o Botafogo fora conquistado com as armas do coração.
    - “Porque o Flamengo é isso: é garra, é superação!” – gritava o cartola, excitado.
    Que fique, mais uma vez esclarecido: garra e superação não são patentes exclusivas do Flamengo. Esse é um patrimônio comum a todos os clubes. Até parece que os rivais do Flamengo vão ao futebol como quem vai ao críquete.
    Domingo, os jogadores do Botafogo foram tão combativos e corajosos quanto os do Flamengo. Sem tirar, nem por.
    Eu conheço muito bem o Flamengo de muitos e muitos arraiais. Por não ser o clube do meu coração, nem por isso eu deixarei de proclamar, sempre, que tenho pelo Flamengo uma grande estima. Sou de uma família de rubro-negros. Mas, nem por isso alguém ouvirá de mim que eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo. Meu hino é outro...
    Tenho autoridade pra afirmar que o Flamengo provém de outras inspirações. Venho de Zizinho, venho de Zico, de Jayme de Almeida, de Junior e Leandro. Jogadores de técnica assombrosa. Não vi Domingos da Guia, nem Fausto, a Maravilha Negra, mas, já aplaudi equipes do Flamengo, timaços memoráveis, muito mais por seus dotes técnicos do que pela gritaria das arquibancadas.
    O futebol deve muito mais à técnica que à garra. Garra é obrigação. Talento é devoção. É coisa só de eleitos...
    O Flamengo sempre deveu muito mais à técnica superior de seus ídolos do que ao clamor de sua multidão. A bravura, como já disse, não é privilégio de ninguém. É um bem da raça humana.
    Eu imagino o Renato Augusto, autor de um gol fabuloso, como aquele de domingo, ouvir tanta gente se esganar, fazendo estardalhaços em louvor da garra e da superação. Até parece que se a torcida do Flamengo tivesse gritado um pouquinho menos, Renato Augusto não teria feito aquele golaço. Tão pouco, o goleiro Bruno teria obrado os milagres que obrou, não tivesse o alento das bandeiras desfraldadas pelo estádio festivo.
    Cascata, gente!
    O time do Flamengo, pode não ser uma maravilha, mas tem seu valor técnico. Tem um bom padrão tático. Além do mais, é bom não esquecer uma irrefutável verdade do futebol: quem pensa que é a torcida que motiva a equipe está enganado. A verdade dos campos vem de sinal trocado: a arquibancada reage na razão direta da conduta do time.
    O torcedor é, acima de tudo, um tremendo oportunista.
    O resto, longe de ser mística, é mistificação.

  4. 05/05/2007

    Os horizontes do futebol



    O Flamengo está em crise? Estava amigo. O que passou, passou.
    No futebol a auto-flagelação nunca é mais forte que a auto-estima. A vida ensina que uma equipe de futebol, às vezes, é mais forte fora que dentro do campo. O nome desse fenômeno é tradição.
    O otimismo que percorre a arquibancada do futebol, costuma desembocar em pleno campo. Contagia, inflama, arrebata.
    Da mesma forma, eu pergunto: o Santos também está em crise? Estava amigo. Pra encurtar a conversa, transponha pro time do Santos, o que está acima dito sobre o time do Flamengo.
    Botafogo, Grêmio, São Caetano, Paranavaí, Goiás, por favor, não se iludam, pois os horizontes do futebol, nunca se fecham, irremediavelmente, pra ninguém. Portanto tratem de correr e de fazer escorrer o suor de seu próprio rosto.
    Bafejado mesmo nesse quadro, acima de qualquer prognóstico, só mesmo o Atlético Mineiro – e olhe lá...
    Boa sorte pra quem mereça ser feliz este domingo.

  5. 04/05/2007

    O Fla na cruz dos caminhos



    O Flamengo entra em ebulição. Não chega a ser o fim do mundo, mas é uma crise preocupante. O jogador Juninho peita o treinador Ney Franco, descontente com a condição de reserva e incendeia o ambiente rubro-negro no momento crucial da sua temporada.
    O clube sai firmemente em defesa da hierarquia e afasta do elenco o profissional rebelado.
    O fato não merece tamanho estardalhaço, afinal, essas desavenças costumam sacudir a rotina dos clubes. O importante é que preservou-se o princípio da autoridade, reforçando o comando de Ney Franco.
    O jogador Juninho, que já não é nenhum adolescente portou-se de modo infeliz no episodio. Arranjou uma lambança, justamente no momento em que o time do Flamengo terá pela frente duas partidas decisivas: domingo, pega o Botafogo e quarta-feira, terá que descontar uma derrota de 3 a 0 pro time uruguaio do Defensor.
    A direção do Flamengo não hesitou: mandou Juninho pro sereno e agora tenta juntar os cacos de sua auto-estima devolvendo ao esquadro os passos de sua equipe.
    Por sua vez, o jogador Juninho, não tendo mais ambiente no Flamengo, terá que ir embora. Como o Campeonato Brasileiro está ai na bica, o jogador vai precisar andar depressa pra não perder o bonde da temporada. Juninho terá que se acertar com outro clube. E a essa altura vale a seguinte pergunta: que clube vai se sujeitar a contratar um jogador que não admite ficar no banco?
    Juninho já está no ocaso da carreira. Será que vale a pena correr o risco de uma nova rebelião?

sobre o blog

Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre. Começou sua carreira jornalística em 1950. Já cobriu 15 Copas do Mundo e 7 Jogos Olímpicos. Escreveu 10 livros sobre esporte.

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