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  1. 30/04/2007

    Rápidas e rasteiras




    Idade provecta
    Conversei com alguns amigos que torcem pelo Flamengo. Todos me juram que não viram o pênalti, ainda no primeiro tempo, cometido pelo zagueiro Irineu, no jogador Luciano Almeida, do Botafogo. Fiquei de tal modo sensibilizado pela convicção com que falam meus amigos que, a essa altura, com a alma sitiada de culpas, estou mandando e-mail a todos eles, pedindo perdão por ter dito que foi pênalti. Eles me provaram que ando vendo visagens. Deve ser coisa da minha idade provecta.


    À luz da economia
    O Flamengo sai no lucro. O Botafogo fica devendo. O Cruzeiro fecha no vermelho. O Atlético Mineiro mata a pau no superávit primário. O São Caetano reduz o risco Brasil. O Grêmio e Juventude se pagam com a mesma moeda.
    Noves fora, até agora, nada...


    Autuori, o cavalheiro
    O técnico Paulo Autuori é um cavalheiro. Entre e sai, sempre, pela porta principal dos clubes por onde passa. Agora mesmo, ao deixar o Cruzeiro, na coletivo pós jogo, falou com elegância e sem pingo de amargor.
    E bem que seu desapontamento tinha lá suas carradas de razão. Quem viu o jogo do Cruzeiro com o Atlético Mineiro achou que o time de Autuori baixou a guarda cedo demais.
    O martírio é uma contingência da vida. O mártir merece todo respeito, mas nunca antes de ter passado por todas as provações. O martírio deve ser precedido de um sopro de heroísmo.
    Verdade que o Atlético estava possuído de um entusiasmo atordoante, mas, ainda assim, não era o caso de entregar o ouro da maneira passiva como fez o Cruzeiro.
    Paulo Autuori salvou a pátria de um time que não soube ser bravo na derrota.


    Fica pra depois da chuva
    O mau tempo desta segunda-feira frustrou o encontro que eu pretendia ter com o Amadeu, o ambulante que vende biscoitos de polvilho na praia de Ipanema. Ele é metido a profeta. Prediz coisas que não estão nem no blog do Lédio Carmona.
    A pauta de nosso papo seria, naturalmente, o descabelado domingo em que Flamengo e Botafogo jogaram duas partidas numa só, que, por sinal, prenuncia coisa parecida daqui a sete dias. E mais: falaríamos do suplico que o Cruzeiro teria pedido ao Atlético Mineiro, relembraríamos o São Caetano, que fez milagre contra todos os santos e, por fim, tocaríamos no empate tempestuoso entre o Grêmio e o Juventude, no campo neutro de Caxias do Sul.
    Amadeu não perde por esperar.


    Pensatinha
    Da série Lições que o Esporte me Ensinou: "O gol que glorifica o artilheiro é o mesmo que mortifica o goleiro."

  2. 28/04/2007

    Futebol é biscoito de polvilho


    De vez em quando, gosto de bater um papo com o Amadeu. O Amadeu é um mulato parrudo, ambulante de praia, que vende biscoito de polvilho nas areias de Ipanema. O Amadeu torce pelo Fluminense, embora tenha jeitão maneiro de Flamengo.
    Pergunto por quem ele vai torcer: pelo Botafogo ou pelo Flamengo?
    E o Amadeu me responde:
    - Vou ao Maracanã, mas é pra torcer contra os dois.
    Insisto em saber quem, na opinião dele vai ganhar o jogo. O Amadeu diz que em briga de cachorro grande não tem mais-mais...
    Embarco na do Amadeu, só acho o seguinte: se a coisa vai ser parelha entre Cruzeiro e Atlético e até mesmo entre Santos e o São Caetano, no Rio, nós dois não vemos as coisas desse modo. A minha teoria e a do Amadeu é que o time do Flamengo está mais inteiro que o do Botafogo. Pelo menos em dois itens que considero decisivos: a parte física e a parte mental. Digamos que o time do Botafogo tem demonstrado um padrão de jogo mais bonito que o do Flamengo, contudo o rubro-negro me parece bem mais descansado. Tem jogado pouco, guardando energias para o grande desgaste que sempre acontece nas decisões de título.
    Em um jogo de futebol, o estado atlético e mental de um time pesam muito na hora da verdade. E é justamente nesses dois quesitos que me louvo para afirmar que o time do Flamengo, leva uma sensível vantagem sobre o Botafogo.
    O Botafogo pelo contrário vai completar agora sete partidas eliminatórias no ritmo de três em três dias. É natural que esteja espoliado da cabeça aos pés. No mínimo, um sinal da fadiga é que, pelo menos cinco jogadores não estão 100% para o jogo de amanhã. Todos passaram a semana na enfermaria.
    Voltando ao Amadeu, ele acha que mesmo assim o clima de decisão contagia todo mundo.
    - Time grande ‘seu’Armando, se mata em campo, mas nunca vai pedir suplico a ninguém.
    - Que diabos você quer dizer com essa palavra suplico? Pergunto eu ao Amadeu.
    - Suplico. Quer dizer que ninguém pede perdão a ninguém.
    Acho bem razoável a filosofia do Amadeu, mas não no caso de Botafogo e Flamengo. Já no campeonato paulista e no mineiro eu acredito que não haja favorito. No Rio porém, o favoritismo do Botafogo é puramente ilusório.
    Segunda-feira, se não chover, pretendo ir comer um biscoito de polvilho com o Amadeu, nas quebradas do Posto 9, em Ipanema.

  3. 26/04/2007

    Pássaro sem asas



    Hoje, dia consagrado ao goleiro. Durante 100 anos, ninguém sofreu tanto no futebol quanto o goleiro. Quando não era frangueiro, era venal. Nem mesmo o árbitro, com o seu rosário de penas, padeceu o que padeceu o goleiro. A regra sempre o discriminou. A crítica sempre foi inclemente com ele.
    Até que a profissionalização plena do futebol como que o legitimou. Concedeu-lhe o título de maioridade
    Hoje, o goleiro é reconhecido como um membro da equipe. Aprendeu a jogar com os pés. Rogério Ceni é um líbero de mão cheia. Júlio César, do Inter, de Milão, era atacante antes de optar pelo gol. O treinamento específico deu status ao goleiro.
    Há 20 anos, eu pressentia a evolução goleiro. De volta do México, onde se disputou o mundial de 86, escrevi o singelo texto que você lerá agora.
    O goleiro vivia triste, confinado na servidão da pequena área. Queria escapar pelos fundos – a rede não deixava. Queria sair pela frente, os beques o chamavam de louco. Na primeira bola que lhe chegou pelo alto, ele deu um vôo, mandou a bola a córner e continuou voando, voando, céu acima, vida afora. Livre como um pássaro.

  4. 26/04/2007

    Rápidas e rasteiras



    O Cruzeiro encalha em Brasília
    A quarta-feira na Copa do Brasil foi emocionante, no Maracanã um 3 a 3 de cortar coração, entre Botafogo e Coritiba. Passou o Bota, mas Deus sabe como.
    A melhor exibição da noite coube ao Fluminense. Empatou com o Bahia jogando melhor que o anfitrião, o que veio reforçar a minha idéia de que Carlos Alberto, a estrela do tricolor, mais atrapalha que ajuda a equipe. O Fluminense foi coletivo, solidário, dinâmico e constante, coisa que não vinha acontecendo há séculos.
    A decepção noturna de quarta-feira foi o Cruzeiro. Pela tradição tinha que ter dado as cartas em Brasília. Longe de ter dado as cartas, foi mais uma vez superado pela equipe do Brasiliense. Brasiliense que vai dar panos pra manga na Copa do Brasil.
    Pelo contrario, o grande rival do Cruzeiro eliminou o Avaí e agora nas quartas teremos um cruzamento de alvinegros, o botafoguense e o atleticano.


    São Paulo já não faz milagres
    O São Paulo, depois do trauma que foi a derrota pro São Caetano, reabilita-se com um empate que o classifica, mas não o recomenda como daqueles favoritos indiscutíveis da Libertadores. Anda jogando a conta do chá, e nada mais.


    Patrícia Bendonado
    Torpedo a céu aberto: Patrícia, em primeiro lugar, parabéns. Continuas a evoluir como personalidade do telejornalismo pátrio. Confesso que pouco te vejo, ultimamente, o que em nada me ajuda a ser mais feliz. O trabalho tem me consumido, cada vez mais. Não te vejo com olhos de rosto, é verdade, mas, em compensação, te imagino com olhos férteis da imaginação.
    Patrícia, em tempo: nunca entendi por que és Maldonado e não Bendonado.
    Abraça-te o marquês de Xapuri.


    O golpe de mestre Lunga
    Pode haver aporrinhação maior que cambista, atacando Deus e o mundo, nas imediações de um estádio de futebol? É só fila, é só atropelo, é a indefectível pancadaria na boca do guichê.
    O negócio é fazer com faz o Lunga. E quem é Lunga? Lunga vem a ser o cambista único e universal que opera no futebol cearense. Ele tem o monopólio de ingressos, em Juazeiro do Norte, no Ceará.
    No último jogo entre o Icasa e o Ceará, o Lunga comprou, sem concorrência, os 12 mil e 900 lugares do estádio. Pagou, na ficha 76 mil reais, levando um desconto de seis por cento.
    O Lunga, que já foi vereador, trocou de rima e, agora, é atravessador. Monopolista, sim senhor!


    Pensatinha
    Da série Lições que o Esporte me Ensinou: “A grama é a planta dos pés...”

  5. 25/04/2007

    O beijo da solidariedade


    Quanto mais revejo na tevê a cena do beijo, no jogo Cabofriense-Botafogo, mais me felicito pelo belo momento que o futebol acaba de oferecer. Foi tudo tão singelo. Foi tudo tão humano.
    Há beijos de mil sabores: cristãos, sensuais, úmidos, tórridos, escatológicos, argentários. Aquele do Maracanã, eu definiria como o beijo da redenção. O becão Cleberson, quase dois metros de estatura, tinha acabado de dar um chega-pra-lá num jogador do Botafogo. Antes que o árbitro o punisse com o cartão amarelo, o moço sapeca um beijo na bochecha de sua senhoria, o juiz.
    E, desde aquele instante, ao mesmo tempo insólito e fugaz, o jogo passou a transcorrer sem o mais leve gesto de violência. Fez-se a paz no campo de batalha.
    O que nos pareceu um beijo roubado pode ter sido um aceno de inocência.
    Ninguém me tira da idéia que aquele beijo saiu como uma purificada recriação do beijo bíblico do Cântico dos Cânticos.
    É certo que cena como aquela nunca mais se verá em qualquer jogo. São repentes, sopros de pura inspiração. Assim, desse jeito meio virginal, é que relembro aquele momento: uma singular celebração de solidariedade que o futebol jamais viveu, nem viverá.

sobre o blog

Armando Nogueira nasceu em Xapuri, no Acre. Começou sua carreira jornalística em 1950. Já cobriu 15 Copas do Mundo e 7 Jogos Olímpicos. Escreveu 10 livros sobre esporte.

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